A Região do Rio Capim é uma das regiões mais importantes para entender o futuro produtivo do Pará.
Ela talvez não receba, no debate público, o mesmo destaque de Carajás, Marajó, Baixo Amazonas, Tapajós, Xingu, Araguaia ou Tocantins. Mas quem conhece o Pará de verdade sabe: o Rio Capim é uma região estratégica. É uma região de agricultura, pecuária, agrofloresta, fruticultura, citricultura, dendê, mandioca, grãos, indústria, floresta, estrada, rio, gente trabalhadora e cidades que podem puxar uma nova fase de desenvolvimento para o nosso estado.
Dentro da visão do Moderniza Pará, o Rio Capim precisa deixar de ser visto apenas como região de passagem, área de produção bruta ou corredor entre polos maiores. O Rio Capim precisa ser tratado como território de oportunidade.
1. Pecuária: transformar rebanho em cadeia de valor
Essa é a essência do projeto: o Pará já tem floresta, água, minério, energia, agricultura, pecuária, cultura, portos, aeroportos, ferrovias e rios; o desafio é transformar essa riqueza natural em riqueza para o paraense, com indústria, logística, turismo, tecnologia, bioeconomia, emprego e dignidade.
E o Rio Capim tem tudo para ser exemplo dessa transformação.
A Região de Integração Rio Capim reúne 16 municípios: Abel Figueiredo, Aurora do Pará, Bujaru, Capitão Poço, Concórdia do Pará, Dom Eliseu, Garrafão do Norte, Ipixuna do Pará, Irituia, Mãe do Rio, Nova Esperança do Piriá, Ourém, Paragominas, Rondon do Pará, Tomé-Açu e Ulianópolis. A Fapespa aponta que a região soma aproximadamente 62 mil km² e mais de 619 mil habitantes, o que mostra o tamanho territorial e humano desse eixo do nordeste paraense.
Mas número sozinho não explica a força do Rio Capim. A força da região está na combinação.
2. Agrofloresta: produzir com a floresta
Ali existe agricultura forte. Existe pecuária. Existe fruticultura. Existe produção agroflorestal. Existe citricultura. Existe indústria. Existe estrada. Existe rio. Existe proximidade com grandes mercados. Existe ligação com a Belém-Brasília, com a BR-222, com a PA-150 e com corredores que conectam o Pará a outras regiões. A própria Fapespa registra que a ocupação regional começou com a navegação dos rios Guamá e Capim, e que a dinamização econômica ganhou força com a abertura da BR-010 e depois da BR-222.
Isso quer dizer que o Rio Capim nasceu ligado à água e cresceu ligado à estrada. Agora precisa entrar em uma nova fase: a fase da integração, da industrialização e do valor agregado. A região não pode se contentar em produzir e mandar embora.
Mandioca não pode ser só raiz. Dendê não pode ser só fruto. Açaí não pode ser só paneiro. Laranja não pode ser só caixa. Cacau não pode ser só amêndoa. Pecuária não pode ser só boi em pé.
Grão não pode ser só carga. Madeira manejada, reflorestamento, agricultura familiar, fruticultura, proteína, leite, peixe, farinha, polpa, óleo, ração, suco, chocolate, bioinsumo e alimento processado precisam virar indústria, marca, emprego e renda dentro da própria região.
Produzir é importante. Mas transformar é o que muda a vida.
3. Tecnologia e inovação
Tomé-Açu talvez seja um dos símbolos mais fortes dessa oportunidade. O município é reconhecido pelo Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu, o SAFTA, apresentado pela própria prefeitura como uma tecnologia social amazônica e um modelo de desenvolvimento rural que alia produtividade de longo prazo com conservação e enriquecimento da floresta.
Isso é muito importante. Porque o mundo inteiro está procurando um modelo de produção que una floresta, alimento, renda e sustentabilidade. E o Rio Capim já tem, em Tomé-Açu, uma experiência que mostra exatamente isso. Agrofloresta não é discurso.
Agrofloresta é cacau, cupuaçu, açaí, dendê, pimenta, mandioca, madeira, sombra, biodiversidade, renda ao longo do ano e recuperação da terra. A floresta em pé precisa gerar dignidade para quem vive dela. E o Rio Capim pode mostrar ao Brasil que a Amazônia não é atraso. A Amazônia é a economia do futuro.
Mas para isso, a produção precisa subir de nível.
4. Dendê e agroflorestas: a nova fronteira
Tomé-Açu não pode vender apenas matéria-prima. Precisa vender chocolate, polpa, óleo, cosmético, alimento beneficiado, marca amazônica, produto certificado e tecnologia agroflorestal. Dados da Fapespa indicam que Tomé-Açu produziu cerca de 536,7 mil toneladas de dendê em 2022 e mais de 41 mil toneladas de mandioca no mesmo ano, além de ter rebanho bovino relevante na região. Isso mostra a diversidade produtiva do município.
Capitão Poço é outro exemplo claro de vocação que precisa virar mais valor local. O Pará já é referência em citricultura, e reportagem da Agência Pará destacou a importância de Capitão Poço, incluindo a presença de uma indústria de suco de citros com capacidade de oito mil toneladas por mês.
Isso é o caminho certo. Não basta produzir laranja. Tem que vender suco. Tem que vender concentrado. Tem que vender marca. Tem que vender logística refrigerada.
Tem que vender emprego industrial. Tem que formar trabalhador. Tem que fortalecer pequeno produtor. Tem que criar cadeia de viveiros, mudas, assistência técnica, embalagem, transporte, exportação e mercado.
5. Indústria: transformar matéria-prima em emprego
Quando a fruta vira indústria, o produtor ganha mais, o trabalhador ganha mais e o município arrecada mais. Esse é o tipo de desenvolvimento que o Moderniza Pará precisa defender. Ulianópolis também mostra a força produtiva do Rio Capim. Relatório da Fapespa aponta que o município produziu cerca de 1,19 milhão de toneladas de cana-de-açúcar em 2022 e registrou crescimento no rebanho bovino em relação ao ano anterior.
Isso abre outra discussão: agroenergia, alimentos, ração, proteína, etanol, açúcar, bioeconomia e agroindústria. A cana não pode ser vista apenas como lavoura. Ela pode ser energia.
Pode ser indústria. Pode ser combustível. Pode ser alimento. Pode ser emprego. Pode ser renda.
Mas tudo isso exige uma visão de cadeia produtiva. O Pará precisa parar de tratar produção como ponto final. Produção é ponto de partida. O valor verdadeiro vem depois: no beneficiamento, na transformação, na marca, na distribuição, na indústria e no mercado.
6. Logística: carga e cidadania
Paragominas, por sua vez, tem papel estratégico. É um polo regional de produção, comércio, serviços, agropecuária, logística e também de aprendizado ambiental. O Rio Capim precisa aproveitar melhor a força de Paragominas, mas sem deixar que o desenvolvimento fique concentrado em um só município.
Paragominas pode puxar tecnologia. Tomé-Açu pode puxar agrofloresta. Capitão Poço pode puxar citricultura. Ulianópolis pode puxar agroenergia.
Dom Eliseu, Rondon do Pará, Ipixuna, Mãe do Rio, Irituia, Ourém, Bujaru, Concórdia, Aurora, Garrafão, Nova Esperança, Abel Figueiredo e os demais municípios podem fortalecer cadeias agrícolas, pecuárias, florestais, logísticas, comerciais e industriais.
Uma região forte não nasce de uma cidade isolada. Nasce de uma rede. E o Rio Capim precisa funcionar como rede de desenvolvimento.
7. Cultura: identidade que vira economia
A logística é uma das chaves. A nova ponte sobre o Alto Rio Capim, entregue em 2025, conecta Ipixuna do Pará e Paragominas, tem 590 metros de extensão e foi apresentada pelo Governo do Pará como obra estratégica para mobilidade, economia regional e escoamento da produção da agricultura familiar.
Isso mostra uma verdade simples: infraestrutura muda a vida. Antes, onde havia espera, balsa, fila e atraso, agora pode haver fluxo, transporte, escola, saúde, comércio, produção chegando mais rápido, caminhão andando melhor, emergência sendo atendida com mais segurança e produtor chegando ao mercado.
Ponte não é concreto. Ponte é oportunidade passando. Estrada não é asfalto. Estrada é produção chegando. Logística não é mapa. Logística é emprego, renda e tempo devolvido ao povo.
Mas a logística do Rio Capim precisa ser pensada para a região inteira. Não pode servir apenas para escoar produto bruto. Precisa atrair agroindústria, armazenamento, câmaras frias, fábricas de ração, beneficiamento de frutas, farinha embalada, processamento de mandioca, laticínios, frigoríficos, pequenas indústrias e centros de distribuição.
8. Comércio e serviços: a base urbana
Onde a estrada melhora, a indústria pode chegar. Onde a ponte conecta, o comércio pode crescer. Onde a produção escoa, o produtor pode ganhar mais.
O Rio Capim também precisa olhar para a pecuária com uma visão moderna. A região tem rebanhos relevantes em diferentes municípios. Capitão Poço, por exemplo, registrou mais de 112 mil cabeças de bovinos em 2022, segundo perfil econômico-vocacional da Fapespa.
Mas o futuro da pecuária não é abrir mais área. O futuro é recuperar pasto antigo. É produzir mais na mesma terra. É melhorar genética. É fazer manejo. É rastrear.
É confinar onde fizer sentido. É integrar lavoura, pecuária e floresta. É criar frigorífico, laticínio, couro, ração e emprego. O boi não pode sair da região deixando pouco valor.
A proteína precisa virar indústria regional. A pecuária moderna precisa ocupar menos, produzir mais e gerar mais renda. Esse é o caminho responsável. Esse é o caminho inteligente.
9. Transporte: conectar o povo
Outro ponto essencial é a agricultura familiar. O Rio Capim tem milhares de famílias que produzem, vendem, plantam, colhem, transportam e sustentam parte importante da economia local. Mas o pequeno produtor não pode continuar enfrentando sozinho o custo do transporte, a falta de assistência técnica, a ausência de crédito, a dificuldade de comercialização e a dependência do atravessador.
Agricultura familiar precisa de estrutura. Precisa de ramal. Precisa de ponte. Precisa de crédito. Precisa de assistência técnica. Precisa de mecanização adequada.
Precisa de cooperativa. Precisa de compra pública. Precisa de agroindústria pequena. Precisa de internet. Precisa de mercado. O produtor pequeno não é pequeno quando está organizado.
Cooperativa forte transforma pequena produção em grande cadeia.
10. Pesca: cadeia produtiva, não só sobrevivência
O Rio Capim também tem espaço para aquicultura e pescado. Diversos perfis econômicos da região tratam a aquicultura como atividade capaz de contribuir para segurança alimentar e desenvolvimento econômico local. Em municípios como Tomé-Açu e Capitão Poço, a Fapespa registra produção de peixes como tambaqui e outros cultivos aquícolas em séries recentes.
A água precisa virar alimento. O alimento precisa virar renda. A renda precisa ficar na região.
Aquicultura bem feita exige tecnologia, licença, qualidade da água, assistência técnica, ração, frigorífico, beneficiamento, transporte e mercado. Se for organizada, pode gerar emprego para jovens, renda para famílias e proteína de qualidade para a população.
O Rio Capim também precisa entrar no mapa do turismo regional. A região tem rios, balneários, história, cultura rural, agroflorestas, produção de frutas, eventos agropecuários, gastronomia, fazendas, comunidades e experiências amazônicas que podem ser melhor estruturadas.
11. Turismo: beleza que precisa virar renda
O turismo do Rio Capim não precisa copiar o turismo de praia. Ele pode ser turismo rural. Turismo de agrofloresta. Turismo de produção. Turismo de rios. Turismo gastronômico.
Turismo de experiência. Turismo de conhecimento. Turismo de eventos. Imagine roteiros que mostrem o SAFTA em Tomé-Açu, a citricultura de Capitão Poço, a força agrícola de Paragominas, a produção de Ulianópolis, as comunidades ribeirinhas, as feiras, a culinária, o artesanato e a história de Ourém.
O visitante precisa encontrar paisagem. Mas o morador precisa encontrar renda. Turismo não é passeio. Turismo é hotel, restaurante, guia, transporte, comércio, artesanato, evento, autoestima e oportunidade.
Só que turismo sem estrutura vira improviso. Precisa de estrada boa, sinalização, internet, segurança, qualificação, calendário, saneamento, promoção e integração entre municípios.
12. Educação técnica e oportunidade para os jovens
O Rio Capim também precisa de educação técnica conectada à sua vocação. Não adianta falar de agroindústria sem formar técnico em alimentos. Não adianta falar de fruticultura sem formar viveiristas, técnicos agrícolas e especialistas em irrigação. Não adianta falar de logística sem formar motoristas, operadores, mecânicos, gestores e profissionais de armazenagem. Não adianta falar de agrofloresta sem formar gente para manejo, beneficiamento, certificação e mercado.
O jovem do Rio Capim precisa enxergar futuro sem precisar ir embora. Ele precisa poder trabalhar com agricultura moderna, agrofloresta, indústria de alimentos, citricultura, dendê, bioeconomia, pecuária moderna, logística, tecnologia, comércio, turismo e serviços.
Uma região só se desenvolve de verdade quando seus jovens conseguem crescer dentro dela. O Moderniza Pará precisa fazer uma defesa clara: a escola técnica, a assistência técnica e a infraestrutura produtiva precisam andar juntas. O conhecimento tem que chegar onde a produção está.
A região também precisa enfrentar seus desafios sociais. Não dá para falar de desenvolvimento apenas olhando produção, estrada e lavoura. A Fapespa apontou desafios importantes na Região de Integração Rio Capim, incluindo indicadores de renda, saúde, educação, acesso à internet e sustentabilidade; o Barômetro de Sustentabilidade classificou a região como potencialmente insustentável em 2022.
Isso precisa ser dito com responsabilidade. Produção sem dignidade não basta. Crescimento sem saúde não basta. Estrada sem escola não basta. Agro sem internet não basta.
Ponte sem oportunidade não basta. O povo precisa sentir a riqueza na vida real. Quando a criança tem escola melhor, o desenvolvimento aparece. Quando a mãe tem saúde mais perto, o desenvolvimento aparece.
Quando o jovem tem curso técnico, o desenvolvimento aparece. Quando o produtor consegue vender melhor, o desenvolvimento aparece. Quando o trabalhador tem emprego formal, o desenvolvimento aparece.
Quando a internet chega no interior, o desenvolvimento aparece. Quando o pequeno empreendedor consegue crédito, o desenvolvimento aparece. É isso que diferencia crescimento de desenvolvimento.
Crescimento aparece no número. Desenvolvimento aparece na mesa, na casa, na estrada, na escola, no emprego e na vida do povo.
O Rio Capim também precisa ser uma região de desenvolvimento ambiental inteligente. A produção precisa crescer, mas crescer melhor. A região tem áreas já abertas, cadeias produtivas estabelecidas, experiências agroflorestais e oportunidades de recuperação produtiva. Não faz sentido repetir erros antigos.
O caminho é produzir mais onde já está aberto. Recuperar áreas degradadas. Regularizar quem quer produzir dentro da lei. Valorizar a agrofloresta. Fortalecer o Cadastro Ambiental Rural.
Reduzir desmatamento. Criar mercado para produto sustentável. Premiar quem produz certo. Atrair investimento responsável. Modernizar o Rio Capim não é destruir sua base natural.
É fazer a terra produzir melhor, a floresta gerar renda e o povo viver com mais dignidade. Esse é o ponto central. O Rio Capim não precisa escolher entre produção e preservação.
Precisa produzir com inteligência e preservar com renda. Não existe preservação duradoura quando o povo fica sem alternativa econômica. E não existe produção sustentável quando se destrói a base natural do futuro.
O caminho é equilíbrio com projeto. O Rio Capim tem uma oportunidade histórica de se apresentar como região de transição para uma nova economia amazônica: agricultura produtiva, agrofloresta, pecuária moderna, bioeconomia, agroindústria, logística e inclusão social.
Essa é uma combinação poderosa. Mas ela não acontecerá por acaso. Precisa de plano. Precisa de coordenação. Precisa de estrada. Precisa de ponte. Precisa de crédito.
Precisa de assistência técnica. Precisa de indústria. Precisa de mercado. Precisa de escola técnica. Precisa de gestão pública. Precisa de política regional.
Precisa de coragem. A pergunta certa não é apenas: quanto o Rio Capim produz? A pergunta certa é: quanto valor fica no Rio Capim? A pergunta certa não é apenas: quantas toneladas saem da região?
A pergunta certa é: quantas fábricas, cooperativas, empregos e empresas nascem a partir dessa produção? A pergunta certa não é apenas: quantos hectares existem? A pergunta certa é: quantas famílias vivem melhor com a terra que já está aberta?
A pergunta certa não é apenas: quantas pontes e estradas são entregues? A pergunta certa é: quanto essas obras transformam a vida do produtor, do estudante, do trabalhador, da mãe, do comerciante e do jovem? Essa mudança de pergunta muda tudo.
Porque coloca o povo no centro. O Rio Capim já tem produção. Já tem estrada. Já tem rio. Já tem agrofloresta. Já tem citricultura. Já tem mandioca. Já tem dendê.
Já tem pecuária. Já tem grão. Já tem gente trabalhadora. Agora precisa de valor agregado. Precisa de indústria. Precisa de logística. Precisa de qualificação.
Precisa de desenvolvimento humano. Precisa de projeto. Quando o Rio Capim cresce, o Pará cresce. Quando Tomé-Açu mostra a força da agrofloresta, o Pará cresce.
Quando Capitão Poço transforma citricultura em indústria, o Pará cresce. Quando Paragominas puxa tecnologia, logística e produção responsável, o Pará cresce. Quando Ulianópolis, Dom Eliseu, Rondon, Ipixuna, Mãe do Rio, Irituia, Ourém, Bujaru, Concórdia, Aurora, Garrafão, Nova Esperança e Abel Figueiredo se integram em cadeias produtivas, o Pará cresce.
Quando a ponte vira conexão, o Pará cresce. Quando o produtor vende melhor, o Pará cresce. Quando o jovem fica para empreender na sua própria região, o Pará cresce.
O Rio Capim não é passagem. O Rio Capim não é periferia. O Rio Capim não é só produção bruta. O Rio Capim é uma das grandes regiões de futuro do Moderniza Pará.
E quem quiser modernizar o Pará precisa entender isso: não existe Pará moderno com o Rio Capim apenas mandando riqueza embora. O Rio Capim precisa fazer a riqueza ficar. Porque desenvolver é isso: transformar o que a região já tem em emprego, renda, dignidade e oportunidade para quem vive ali.





